O transplante de medula óssea ainda gera muitas dúvidas na população. Como surgiu? Para que serve? Como é possível colaborar com pacientes que necessitam do transplante? Por este motivo, esclarecer sobre o tema e divulgar o registro nacional de doadores é fundamental para salvar vidas. Assim, o Blog Saúde e Você entrevistou a Dra. Júlia Plentz Portich, especialista em Transplante de Medula Óssea e hematologista do Hospital Moinhos de Vento. Acompanhe, abaixo:

1. Quando surgiu o transplante de medula óssea e em que contexto ele começou a ser realizado?

Dra. Júlia Plentz Portich - O transplante de medula óssea começou a ser desenvolvido na prática clínica a partir da década de 1950, em um contexto de intensa pesquisa sobre os efeitos da radiação na medula óssea e a possibilidade de restaurar a produção do sangue por meio de células hematopoéticas saudáveis.

Estes estudos ganharam força após a Segunda Guerra Mundial, com avanços importantes na radiobiologia e na imunologia. Neste período, o médico E. Donnall Thomas, do “Fred Hutchinson Cancer Center”, teve papel fundamental no desenvolvimento do método e, posteriormente, recebeu o Prêmio Nobel de Medicina por esta contribuição.

2. Quais foram os principais marcos históricos desde os primeiros procedimentos até hoje?

Dra. Júlia Plentz Portich - Os principais marcos da evolução do transplante incluem:

- Década de 1950: realização dos primeiros transplantes experimentais e das primeiras tentativas em humanos;

- Década de 1960: descoberta e compreensão do sistema HLA (do inglês “Human Leucocyte Antigen” ou Antígeno Leucocitário Humano), que permitiu identificar doadores compatíveis e aumentou significativamente a segurança do procedimento;

- Final dos anos 1960 e década de 1970: consolidação dos primeiros transplantes alogênicos bem-sucedidos para leucemias e outras doenças hematológicas;

- Anos 1980 e 1990: criação e expansão dos registros internacionais de doadores, ampliando o acesso ao transplante para pacientes sem doador compatível na família;

- 1990: E. Donnall Thomas recebe o Prêmio Nobel de Medicina pelo desenvolvimento do transplante de medula óssea;

- Anos 2000 em diante: avanços em tipagem HLA de alta resolução, melhor prevenção da doença do enxerto contra o hospedeiro (DECH), regimes de condicionamento menos tóxicos e expansão de modalidades como o transplante haploidêntico.

3. Como o transplante evoluiu em termos de segurança e taxas de sucesso ao longo das décadas?

Dra. Júlia Plentz Portich - A evolução foi muito significativa. Nas primeiras décadas, o procedimento era associado a taxas elevadas de complicações e mortalidade, principalmente por infecções, toxicidade de órgãos e doença do enxerto contra o hospedeiro.

Com o avanço do conhecimento médico, houve melhorias importantes na seleção de doadores, no suporte clínico, no controle de infecções, na tipagem HLA - que é o sistema de compatibilidade entre doador e receptor - e nas estratégias de prevenção da DECH.

Hoje, o transplante é realizado com muito mais segurança, com aumento consistente das taxas de sobrevida e melhora importante na qualidade de vida dos pacientes.

4. Em que situações o transplante de medula óssea é indicado?

Dra. Júlia Plentz Portich - O transplante de medula óssea é indicado principalmente em doenças hematológicas graves, tanto malignas quanto algumas não malignas, quando há expectativa de cura ou de controle prolongado da doença.

Entre as indicações mais comuns estão:

- Leucemias agudas;

- Síndromes mielodisplásicas;

- Alguns tipos de linfoma;

- Mieloma múltiplo - especialmente no transplante autólogo (procedimento em que o paciente recebe as suas próprias células);

- Aplasia de medula óssea (ou anemia aplásica é uma condição grave em que a medula óssea falha na produção das células do sangue);

- Algumas doenças genéticas ou imunológicas.

Sendo que a indicação depende de diversos fatores, como o tipo de doença, o risco biológico, a resposta ao tratamento inicial, a idade e as condições clínicas do paciente.

5. Qual foi o impacto do desenvolvimento do registro de doadores?

Dra. Júlia Plentz Portich - Foi transformador. Os registros permitiram que pacientes sem doador compatível na família pudessem encontrar um doador não aparentado no próprio país ou no exterior. Na prática, isto ampliou enormemente o acesso ao transplante alogênico.

No Brasil, o REDOME, criado em 1993 e coordenado pelo INCA (Instituto Nacional de Câncer), tornou-se um dos maiores registros do mundo. Em 2025, o sistema contava com cerca de 6 milhões de doadores cadastrados, sendo atualmente o terceiro maior registro global.

Este avanço aumenta significativamente as chances de encontrar compatibilidade para pacientes que necessitam do transplante, além de fortalecer a integração do país às redes internacionais de busca de doadores.

6. Quando o Hospital Moinhos de Vento começou a realizar transplantes de medula óssea? Qual foi o contexto e desafio daquela época?

Dra. Júlia Plentz Portich - O programa de transplante de medula óssea do Hospital Moinhos de Vento iniciou em 2015, dentro de um movimento de expansão da hematologia de alta complexidade e da terapia celular na instituição.

Desde o início, o programa foi estruturado com uma equipe multiprofissional altamente especializada, infraestrutura dedicada e protocolos alinhados às melhores práticas internacionais.

O principal desafio naquele momento foi implantar um programa altamente complexo do ponto de vista assistencial e tecnológico, que exige integração entre diferentes especialidades médicas, laboratório especializado, rigoroso controle de infecções e suporte clínico intensivo.

Com investimento em tecnologia, qualificação da equipe e organização assistencial, o hospital conseguiu consolidar rapidamente esse serviço.

7. Hoje, como é esta realidade? E como está a procura por transplantes de medula óssea?

Dra. Júlia Plentz Portich - Hoje, o Hospital Moinhos de Vento conta com um programa consolidado de transplante de medula óssea, com estrutura dedicada, equipe altamente especializada e atendimento para pacientes adultos e pediátricos.

Desde a criação do programa, quase 300 transplantes já foram realizados, refletindo a maturidade e a capacidade do serviço. A procura pelo procedimento é significativa, com pacientes encaminhados de diferentes regiões, o que reforça o papel do hospital como centro de referência em hematologia e transplante de medula óssea.

9. Em termos de protocolos ou abordagens, o Moinhos segue as tendências internacionais? E pode-se dizer que se destaca no cenário nacional?

Dra. Júlia Plentz Portich - Sim. O programa de transplante de medula óssea do Hospital Moinhos de Vento segue protocolos alinhados às principais diretrizes internacionais e incorpora continuamente avanços da hematologia e da terapia celular.

A instituição oferece modalidades modernas de transplante, conta com uma equipe multiprofissional experiente e infraestrutura altamente especializada para o manejo destes pacientes.

Este conjunto de fatores coloca o hospital entre os centros de referência em transplante de medula óssea no país, com um programa que combina excelência assistencial, inovação e cuidado altamente especializado.

10. Na sua opinião, quais são os próximos avanços esperados para os próximos cinco ou dez anos na área de transplante de medula óssea?

Dra. Júlia Plentz Portich - Os próximos anos devem trazer avanços importantes que tornarão o transplante ainda mais seguro e eficaz. Entre as principais tendências estão o desenvolvimento de regimes de condicionamento menos tóxicos, estratégias cada vez mais eficazes para prevenção da doença do enxerto contra o hospedeiro e métodos mais refinados de seleção de doadores, com base em análises genéticas avançadas.

Além disso, deve ocorrer uma integração cada vez maior entre o transplante e novas terapias celulares, como as terapias CAR-T e outras abordagens de imunoterapia.

O monitoramento da doença residual mínima também tende a se tornar mais preciso, permitindo decisões terapêuticas mais personalizadas e melhores resultados de longo prazo para os pacientes.

Fonte: Dra. Júlia Plentz Portich (CRM 42592/RQE 39064 e 40173) é especialista em Transplante de Medula Óssea e hematologista do Hospital Moinhos de Vento.

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