Os tumores cerebrais ainda despertam muitas dúvidas entre pacientes e familiares. Embora nem todos sejam malignos, a identificação precoce e o acompanhamento especializado ampliam as possibilidades de tratamento e contribuem para preservar a qualidade de vida. A trajetória do ex-jogador de basquete Oscar Schmidt, que conviveu por 15 anos com a doença, ajudou a manter o tema em evidência e trouxe uma nova perspectiva.
Mas, afinal, quais sinais merecem atenção? Uma dor de cabeça persistente, esquecimentos significativos ou episódios de confusão mental podem indicar algo mais sério? E os sintomas iniciais são capazes de ser confundidos com depressão, estresse ou até demência? Para esclarecer estas e outras questões importantes, o Blog Saúde e Você conversou com o neurocirurgião Dr. Marco Antonio Stefani.
1. O que é um tumor cerebral?
Dr. Marco Antonio Stefani - Um tumor cerebral é um crescimento anormal e descontrolado de células dentro do crânio. Se ele se originar nas próprias células do cérebro é considerado tumor primário. Se começar em outro órgão do corpo e se espalhar para o cérebro é um tumor secundário ou metástase. À medida que cresce, o tumor comprime os tecidos saudáveis ao seu redor, o que prejudica as funções normais do sistema nervoso.
2. Todo tumor cerebral é um câncer?
Dr. Marco Antonio Stefani - Não. Os tumores cerebrais dividem-se em duas grandes categorias:
- Benignos (não cancerígenos): têm crescimento lento, bordas bem definidas e não se espalham para outras partes do corpo. No entanto, por estarem confinados no espaço rígido do crânio, podem ser perigosos e causar sintomas graves ao pressionar áreas vitais.
- Malignos (câncer): têm crescimento rápido, invadem tecidos saudáveis vizinhos de forma agressiva e apresentam maior risco de retorno após o tratamento.
3. Quais são os tipos mais comuns de tumores cerebrais?
Dr. Marco Antonio Stefani - Os tipos mais frequentes em adultos são:
- Meningiomas: tumores que se formam nas meninges (as membranas que protegem o cérebro). A grande maioria é benigna.
- Gliomas: tumores que começam nas células gliais (que dão suporte aos neurônios). Eles incluem o astrocitoma e o glioblastoma (este último sendo o tipo maligno primário mais comum e agressivo).
- Metástases cerebrais: tumores que migraram de cânceres localizados em outras partes do corpo, como pulmão, mama, melanoma ou cólon.
4. Quais são os sinais de alerta que devem ser levados a sério?
Dr. Marco Antonio Stefani - Os principais sinais que exigem avaliação médica urgente incluem:
- Convulsões em pessoas que nunca tiveram crises convulsivas antes.
- Perda de equilíbrio, tonturas frequentes ou dificuldade para caminhar.
- Fraqueza, dormência ou formigamento em apenas um lado do corpo (braço ou perna).
- Alterações repentinas na visão (como visão dupla ou perda de visão periférica) ou na audição.
- Dificuldade inexplicável para conversar, articular palavras ou compreender a fala alheia.
5. Dor de cabeça persistente pode indicar um tumor?
Dr. Marco Antonio Stefani - Sim, pode indicar um tumor, mas não isoladamente. Dores de cabeça são extremamente comuns e, na imensa maioria das vezes, são causadas por enxaqueca ou tensão.
A dor de cabeça que acende o alerta para um tumor cerebral possui características específicas:
- É progressiva (ou seja, a cada dia piora);
- Costuma ser mais intensa ao acordar (devido à pressão intracraniana que aumenta quando o indivíduo está deitado);
- Vem acompanhada de náuseas, vômitos ou outros sintomas neurológicos.
6. Alterações de memória e comportamento podem estar relacionadas à doença?
Dr. Marco Antonio Stefani - Sim. Se o tumor estiver localizado em áreas responsáveis pelas funções cognitivas e emocionais (como o lobo frontal ou o lobo temporal), ele pode causar esquecimentos severos, confusão mental, apatia, irritabilidade extrema ou mudanças drásticas na personalidade da pessoa. Muitas vezes, estes sintomas são confundidos inicialmente com depressão, estresse ou demência.
7. Como é feito o diagnóstico? Quais exames costumam ser utilizados?
Dr. Marco Antonio Stefani - O processo de diagnóstico geralmente segue os seguintes passos:
- Exame neurológico: o médico avalia reflexos, força muscular, coordenação e visão.
- Ressonância Magnética (RM): é o principal e mais preciso exame de imagem para identificar a localização e o tamanho do tumor.
- Tomografia Computadorizada (TC): pode ser usada em casos de emergência ou quando a ressonância não está disponível.
- Biópsia: é a retirada de um pequeno fragmento do tumor (geralmente durante a cirurgia). Apenas a análise deste tecido em laboratório pode confirmar o tipo exato e a agressividade (grau) do tumor.
8. É possível detectar um tumor cerebral precocemente? Existem fatores de risco conhecidos?
Dr. Marco Antonio Stefani - Ao contrário de outros cânceres, não existem exames de rotina ou rastreamento (como a mamografia ou o Papanicolau) para detectar tumores cerebrais antes dos sintomas surgirem. A detecção precoce depende de a pessoa procurar um médico assim que notar os sinais de alerta.
Quanto aos fatores de risco, a maioria dos casos ocorre de forma espontânea, sem causa definida. Os únicos fatores comprovados são a exposição à radiação ionizante (como radioterapia prévia na cabeça) e algumas síndromes genéticas raras (como a Neurofibromatose).
9. Quais são os tratamentos mais utilizados atualmente? E quando a cirurgia é indicada?
Dr. Marco Antonio Stefani - O tratamento é personalizado e costuma combinar:
- Cirurgia: é indicada como o primeiro passo sempre que o tumor estiver em uma localização acessível e segura. O objetivo é remover o máximo possível da massa tumoral para reduzir a pressão no cérebro e aliviar os sintomas.
- Radioterapia: uso de feixes de radiação direcionados para destruir células tumorais restantes.
- Quimioterapia: medicamentos (em comprimidos ou na veia) que combatem as células cancerígenas.
- Terapias-alvo: medicamentos mais modernos que atacam características específicas das células tumorais, poupando as células saudáveis.
10. O caso de Oscar Schmidt mostra que uma pessoa pode viver muitos anos após o diagnóstico?
Dr. Marco Antonio Stefani - Sim. O ex-jogador de basquete Oscar Schmidt conviveu com um tumor cerebral por 15 anos, mantendo uma vida ativa, com palestras e aparições públicas, antes de falecer, em abril. A trajetória dele demonstra claramente que o diagnóstico não é uma sentença imediata e que os tratamentos médicos modernos são capazes de prolongar a vida com excelente nível de bem-estar.
11. Esta é uma realidade, mesmo, ou o caso do ex-jogador de basquete foi raro?
Dr. Marco Antonio Stefani - O caso de Oscar Schmidt foi uma realidade possível, mas associada ao tipo específico de tumor que ele teve. O ex-jogador foi diagnosticado com um glioma de baixo grau (grau 2). Este tipo de tumor cresce de forma muito lenta, permitindo que o paciente passe por cirurgias e tratamentos ao longo de anos com boa resposta. Infelizmente, para pacientes diagnosticados com tumores de alto grau (ou grau 4, como o glioblastoma), o cenário médico atual ainda é muito desafiador e a sobrevida costuma ser significativamente menor, tornando casos de longuíssima sobrevida, como o dele, mais raros nesta categoria agressiva.
12. Na sua opinião, o que o caso de Oscar Schmidt ensina à população sobre os tumores cerebrais?
Dr. Marco Antonio Stefani - A jornada de Oscar Schmidt deixa lições fundamentais para a sociedade:
- Desmistificação da doença: ele provou que receber o diagnóstico de um tumor cerebral não significa o fim da vida produtiva ou da alegria de viver;
- Importância da ciência e da adesão ao tratamento: sua longevidade foi fruto direto de cirurgias precisas, terapias médicas rigorosas e um acompanhamento neuro-oncológico constante;
- Resiliência psicológica: a postura otimista e a determinação do “Mão Santa” diante da doença ressaltam como o cuidado com a saúde mental e o apoio familiar são pilares indispensáveis no enfrentamento de diagnósticos complexos de saúde.
Fonte: Dr. Marco Antonio Stefani (CRM 17456) é neurocirurgião no Serviço de Neurologia e Neurocirurgia do Hospital Moinhos de Vento.

Bloco A e Bloco C – Rua Ramiro Barcelos, 910 – Moinhos de Vento, Porto Alegre – RS, 90560-032
Ver no mapaBloco B – Rua Tiradentes, 333 – Moinhos de Vento, Porto Alegre – RS, 90035-001
Ver no mapaRua Ramiro Barcelos, 910 - Moinhos de Vento, Porto Alegre - RS, 90560-032
Ver no mapaAv. Padre Cacique, 2893 – Cristal, Porto Alegre – RS, 90810-240
Ver no mapaAv. João Wallig, 1800 – 3º andar – Passo d'Areia, Porto Alegre – RS, 91349-900
Ver no mapaAv. Getúlio Vargas, 4841 – Centro, Canoas – RS, 92010-010
Ver no mapaRua Coronel Aparício Borges, 250 - 3º andar - Teresópolis, Porto Alegre - RS, 90870-016
Ver no mapaRua Ramiro Barcelos, 630 – 5º andar – Floresta, Porto Alegre – RS, 90035-001
Ver no mapa