Nos últimos anos, o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) em adultos passou a ocupar cada vez mais espaço na imprensa, nas redes sociais e nos consultórios médicos. Antes tratado, muitas vezes, com certo tom de ironia ou como simples distração, o tema vem sendo discutido com mais profundidade e embasamento científico. E não é à toa. Segundo a Associação Brasileira do Déficit de Atenção (ABDA), 5,2% dos indivíduos entre 18 e 44 anos e 6% dos que possuem mais de 45 anos têm TDAH. O Ministério da Saúde (MS) explica que os pacientes com este transtorno podem enfrentar dificuldades na organização e produtividade, como problemas em gerenciar o tempo, manter a concentração em tarefas longas e seguir planos e rotinas. 

Conforme o MS, esta desorganização pode levar a atrasos e a uma sensação constante da pessoa estar sobrecarregada. Mas será que estamos, mesmo, diante de um aumento no número de casos de TDAH em adultos? Para compreender este cenário, o blog Saúde e Você entrevistou a Dra. Fernanda Timm, psiquiatra do Hospital Moinhos de Vento.

1. Houve aumento da procura por avaliação e diagnóstico do TDAH em adultos nos últimos anos?

Dra. Fernanda Timm - Sim e os números mostram isso. Nos Estados Unidos, por exemplo, a proporção de adultos que relatam ter recebido o diagnóstico quase triplicou entre 2012 e 2023. Na Suécia e no Canadá aconteceu algo parecido, com o uso de medicação e o número de novos diagnósticos disparando, principalmente, depois da pandemia. Porém, isto não quer dizer que o TDAH, em si, esteja “se multiplicando”.

2. O que explica o crescimento destes índices?

Dra. Fernanda Timm - Vários fatores ajudam a explicar este salto: 

- O DSM-5 (“Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders” ou Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, em sua 5ª edição) reduziu de seis para cinco o número de sintomas necessários para fechar o diagnóstico em adultos;

- Profissionais e público em geral ficaram mais atentos ao tema;

- O estigma diminuiu;

- A comunidade começou a entender que o transtorno pode aparecer pela primeira vez já na vida adulta;

- A pandemia, que ocasionou isolamento e sobrecarga mental, intensificou os sintomas e aumentou a procura por avaliação. 

Todavia, quando são observados estudos populacionais sérios, a estimativa real de adultos com TDAH fica entre 2,5% e 3%, bem menor do que as taxas de diagnóstico vistas em alguns lugares.

3. Na sua opinião, o TDAH em adultos sempre existiu e era subdiagnosticado?

Dra. Fernanda Timm - Sem dúvida. Durante décadas, o TDAH foi tratado como “coisa de criança”, como se bastasse crescer para a pessoa se livrar dele. Hoje, sabemos que isto é um engano: entre 40% e 60% do público infantil com TDAH carrega sintomas que continuam atrapalhando a vida adulta.

4. Por que as mulheres demoraram tanto a ter o diagnóstico?

Dra. Fernanda Timm - Historicamente, as mulheres passaram a vida inteira sem diagnóstico, porque nelas o TDAH costuma se manifestar de um jeito mais silencioso (com desorganização, esquecimento e ansiedade), sem aquela agitação física que chama tanto a atenção nos meninos. Isto está mudando: o número de diagnósticos em homens e mulheres vem ficando mais parecido.

5. Adultos com TDAH, necessariamente, tinham sintomas quando crianças?

Dra. Fernanda Timm - Não. Um dado revelador: pesquisas que acompanharam pessoas ao longo da vida mostraram que dois terços dos adultos com TDAH não tinham sintomas claros o suficiente na infância para fechar o diagnóstico na época. Isto sugere a existência de um subtipo de início mais tardio, em que o transtorno só se manifesta de forma completa quando a vida adulta passa a exigir mais organização, foco e planejamento.

6. Afinal, quais são os critérios para diagnosticar o TDAH em um adulto?

Dra. Fernanda Timm - Segundo a “American Psychiatric Association”, o adulto precisa apresentar pelo menos cinco sinais de uma lista de nove, dentro de dois grandes grupos: desatenção ou agitação/impulsividade. Estes sinais precisam estar presentes há seis meses, em intensidade maior do que seria esperado para a idade da pessoa e realmente atrapalhando a vida dela.

Desatenção

Entre os principais sinais de desatenção estão:

- Dificuldade para manter o foco e organizar tarefas;

- Impressão de não escutar quando alguém fala diretamente com a pessoa;

- Tendência a evitar atividades que exijam esforço mental prolongado;

- Perda frequente de objetos;

- Facilidade para se distrair, inclusive com os próprios pensamentos;

- Esquecimento de compromissos do dia a dia.

Agitação/impulsividade

Já no grupo da agitação/impulsividade, estão:

- Inquietação constante;

- Dificuldade para permanecer parado;

- Tendência a falar em excesso;

- Propensão a interromper outras pessoas durante as conversas;

- Predisposição a tomar decisões importantes sem refletir sobre as consequências.

Confirmação

Além disso, para o diagnóstico ser válido:

- Alguns destes sinais precisam aparecer no paciente, desde antes dos 12 anos de idade; 

- Os sintomas devem ser vistos em mais de um ambiente da vida, não só no trabalho ou apenas em casa; 

- Precisa haver um impacto real e perceptível na vida social, nos estudos ou no trabalho da pessoa. E eles não podem ser melhor explicados por outro problema de saúde mental.

7. O que diferencia alguém com TDAH de uma pessoa que está apenas com a “cabeça cheia”? 

Dra. Fernanda Timm - O que diferencia o paciente com TDAH de uma pessoa que está apenas com a “cabeça cheia” é que os sintomas formam um padrão constante, prejudicam de fato a vida da pessoa e não são, simplesmente, falta de esforço ou desinteresse.

8. E que mensagem a senhora gostaria de deixar aos nossos leitores sobre este tema, especialmente para aqueles que suspeitam ter o diagnóstico, mas não têm a confirmação e nem fazem nenhum tratamento?

Dra. Fernanda Timm - Quem tem dúvidas sobre a possibilidade de ter TDAH deve procurar uma avaliação especializada com um psiquiatra. O diagnóstico correto permite esclarecer a origem dos sintomas e, quando necessário, iniciar o tratamento mais adequado, além de receber orientações que podem facilitar a rotina e melhorar a qualidade de vida. Existe como melhorar muito vários aspectos da vida dos adultos com TDAH.

Fonte: A Dra. Fernanda Timm (CRM 22488) é psiquiatra do Hospital Moinhos de Vento.

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