A semaglutida, princípio ativo de medicamentos como Ozempic e Wegovy, é uma molécula presente em medicamentos para diabetes tipo 2 e obesidade. Pesquisas atuais indicam que ela também pode possuir uma ação anti-inflamatória, colaborando na proteção contra eventos cardiovasculares, como infarto e acidente vascular cerebral (AVC). Mas, na prática, quando é indicada para a saúde do coração? Para responder a esta e a outras perguntas sobre o tema, o blog Saúde e Você entrevistou a Dra. Carisi Polanczyk, chefe do Serviço de Cardiologia do Hospital Moinhos de Vento.

Quando a semaglutida tem indicação clínica?

Dra. Carisi Polanczyk - As indicações clínicas da semaglutida, fundamentadas em evidências de ensaios clínicos e diretrizes recentes abrangem, principalmente, três cenários: 

  • Controle glicêmico em indivíduos com diabetes tipo 2;
  • Redução do risco cardiovascular em pacientes com diabetes tipo 2;
  • Doença cardiovascular estabelecida e manejo crônico do excesso de peso/obesidade em adultos com Índice de Massa Corporal (IMC) maior ou igual a 30 kg/m² ou superior a 27 kg/m² na presença de comorbidades relacionadas ao peso.

Quais são os outros públicos que podem se beneficiar com o uso da semaglutida?

Dra. Carisi Polanczyk - Outro grupo emergente é de pacientes com sobrepeso e insuficiência cardíaca. Ensaios robustos, como o “Estudo SELECT”, também demonstraram benefício em pacientes com sobrepeso/obesidade e doença cardiovascular, inclusive naqueles com insuficiência cardíaca, reduzindo MACE (“Major Adverse Cardiac Events” ou eventos cardíacos adversos maiores), hospitalizações por insuficiência cardíaca e mortalidade cardiovascular.

Como a semaglutida pode melhorar a qualidade de vida e promover a proteção cardiovascular?

Dra. Carisi Polanczyk - A semaglutida demonstra benefícios consistentes e clinicamente relevantes na qualidade de vida (QoL) de pacientes com obesidade, diabetes tipo 2, osteoartrite e esteato-hepatite não alcoólica, conforme evidenciado por múltiplos ensaios clínicos e estudos observacionais. Em cada um destes cenários houve melhora significativa dos escores de qualidade de vida, com maior bem-estar físico, vitalidade, interação social e redução da dor.

Quais são os efeitos adversos da semaglutida?

Dra. Carisi Polanczyk - Os efeitos adversos mais comuns da semaglutida são gastrointestinais, especialmente durante o período de titulação (ou ajustes) da dose. Os eventos mais frequentemente relatados incluem:

  • Náusea (de 25 a 44%);
  • Diarreia (de 19 a 30%);
  • Vômitos (de 8 a 24%);
  • Constipação (de 17 a 24%);
  • Dor abdominal (de 9 a 20%). 

 

Sendo que estes sintomas tendem a ser de leves a moderados, autolimitados e geralmente diminuem com a continuidade do tratamento e a estabilização da dose. Acompanhamento médico pode auxiliar a minimizar esses efeitos com ajustes de doses e terapia sintomática. 

O uso da semaglutida deve ser acompanhado por um médico?

Dra. Carisi Polanczyk - Sim, pois alguns casos específicos e raros relatados, incluem:

- Distúrbios da vesícula biliar;

- Pancreatite;

- Problemas oculares. 

Por isto, a importância do acompanhamento médico quando for feito o uso da medicação.

Quais são as suas considerações finais sobre a semaglutida?

Dra. Carisi Polanczyk - Estamos frente a uma classe nova de medicação que reduz significativamente o peso e as complicações relacionadas à adiposidade. Existem cenários bem precisos que foram testados e que mostraram benefícios. Entretanto, não temos, até o presente momento, nenhuma evidência de que o uso desta medicação é melhor que uma boa dieta/alimentação e exercícios físicos como forma de manter o peso saudável em indivíduos sem doença cardíaca ou diabetes mellitus estabelecida. Na realidade, eles devem ser sempre reforçados junto a uma dieta saudável e prática de atividade física regular e nunca em substituição.

Fonte:

 A Dra. Carisi Anne Polanczyk (Cremers 19229) é chefe do Serviço de Cardiologia do Hospital Moinhos de Vento.

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