Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), as doenças cardiovasculares são a principal causa de morte no mundo. Do total desses óbitos, 85% foram causados por infarto e Acidente Vascular Cerebral (AVC). O curioso é que muitos desses problemas podem evoluir silenciosamente durante anos, antes que sintomas como dor no peito, falta de ar ou palpitações apareçam. Nesse cenário, manter o acompanhamento médico e realizar os exames indicados pode ajudar a identificar alterações precocemente. Afinal, prevenção não é excesso de cuidado.
1) Por que muitas doenças cardiovasculares são consideradas “silenciosas”?
Dr. Bernardo Pizarro de Magalhães - Muitas doenças cardiovasculares são consideradas silenciosas porque podem se desenvolver durante anos, ou até décadas, sem provocar sintomas perceptíveis. Quando os primeiros sinais aparecem, a doença muitas vezes já está em estágio avançado.
Duas analogias interessantes para compreender esse processo são a “cascata isquêmica” e o “iceberg”.
Na chamada “cascata isquêmica”, que descreve a sequência de alterações provocadas pela falta de oxigênio no músculo cardíaco, a dor não é o primeiro acontecimento. Inicialmente, ocorre uma redução da perfusão do coração, ou seja, da quantidade de sangue que chega ao músculo cardíaco. Em seguida, surgem alterações metabólicas, comprometimento do relaxamento do coração (disfunção diastólica), redução da capacidade de contração (disfunção sistólica) e alterações no eletrocardiograma. Somente depois, quando presente, surge a dor torácica, conhecida como angina.
Isso demonstra que o coração pode apresentar alterações importantes antes mesmo de o paciente perceber qualquer sintoma.
Outra analogia interessante é a do “iceberg”. Assim como a maior parte de um iceberg permanece submersa, grande parte das doenças cardiovasculares evolui de maneira silenciosa. A ponta visível representa os sintomas, enquanto a base submersa corresponde a anos de alterações que se desenvolvem sem serem percebidas, como hipertensão arterial, aterosclerose, inflamação vascular e disfunção endotelial.
Por isso, a ausência de sintomas não significa necessariamente ausência de doença cardiovascular. Esse é um dos principais motivos pelos quais a prevenção, o controle dos fatores de risco e a avaliação médica individualizada são tão importantes.
2) Qual é o impacto dos exames preventivos na redução de infarto e AVC?
Dr. Bernardo Pizarro de Magalhães – Os exames preventivos são fundamentais para identificar precocemente fatores de risco e doenças cardiovasculares que muitas vezes ainda não apresentam sintomas, permitindo intervenções antes do surgimento de complicações graves, como infarto e AVC.
A avaliação da pressão arterial, do colesterol e da glicemia permite identificar condições como hipertensão, dislipidemia e diabetes, cujo tratamento adequado reduz significativamente o risco cardiovascular.
O eletrocardiograma pode identificar alterações silenciosas, como a fibrilação atrial, arritmia associada ao aumento do risco de AVC, além de alterações sugestivas de doenças estruturais do coração, como a miocardiopatia hipertrófica.
Já o teste ergométrico e a ergoespirometria, quando bem indicados, podem identificar alterações sugestivas de isquemia miocárdica durante o esforço. A ergoespirometria também permite avaliar a aptidão cardiorrespiratória, um importante marcador prognóstico de saúde cardiovascular.
É relevante destacar que a escolha dos exames deve ser individualizada, considerando idade, histórico familiar e fatores de risco.
Mais importante do que realizar muitos exames é realizar os exames certos e transformar seus resultados em medidas efetivas de prevenção.
3) Na prática, em que momento da vida a pessoa deve começar a se preocupar com o coração?
Dr. Bernardo Pizarro de Magalhães – A saúde cardiovascular deve ser uma preocupação ao longo de toda a vida, já que muitas doenças cardiovasculares começam a se desenvolver silenciosamente ainda na juventude.
A atenção deve ser redobrada desde a adolescência ou início da vida adulta em pessoas com fatores de risco, especialmente aquelas com histórico familiar de morte súbita ou de doença cardiovascular precoce, definida como eventos em familiares de primeiro grau antes dos 55 anos nos homens e dos 65 anos nas mulheres.
Além disso, indivíduos que praticam esportes competitivos ou atividades físicas de alta intensidade devem passar por uma avaliação cardiovascular individualizada, considerando suas características clínicas e a modalidade esportiva.
A prevenção cardiovascular não deve começar quando surgem os primeiros sintomas, mas muito antes, por meio de hábitos saudáveis, identificação dos fatores de risco e acompanhamento médico individualizado.
4) Quais são os exames básicos que podem fazer parte da avaliação da saúde do coração?
Dr. Bernardo Pizarro de Magalhães – Todos os exames cardiovasculares possuem indicações bem definidas nas diretrizes de Cardiologia, sendo solicitados de acordo com os sintomas, fatores de risco e histórico clínico de cada paciente. Por isso, não existe uma “receita de bolo” que se aplique a todas as pessoas.
No entanto, vale destacar a importância da aferição regular da pressão arterial e dos exames laboratoriais, como colesterol e glicemia, fundamentais para identificar fatores de risco cardiovascular.
O eletrocardiograma pode identificar arritmias e outras alterações cardíacas. Já o teste ergométrico e, quando indicada e disponível, a ergoespirometria são exames importantes para avaliar a resposta cardiovascular ao esforço físico e a capacidade funcional do paciente. Além de identificar possíveis alterações sugestivas de isquemia miocárdica e arritmias induzidas pelo exercício, a ergoespirometria permite uma avaliação mais precisa da aptidão cardiorrespiratória, considerada um dos principais marcadores prognósticos de saúde cardiovascular e mortalidade.
Já o ecocardiograma é um exame fundamental para avaliar a estrutura e o funcionamento do coração, incluindo a força de contração, as dimensões das cavidades, a espessura das paredes e a anatomia e o funcionamento das válvulas cardíacas.
O mais importante é compreender que a avaliação cardiovascular deve ser individualizada, buscando identificar precocemente alterações e orientar medidas eficazes de prevenção.
5) Com que frequência exames como eletrocardiograma e teste ergométrico devem ser realizados? E em que casos? Para qual perfil de paciente?
Dr. Bernardo Pizarro de Magalhães – Não existe uma frequência fixa para a realização desses exames, pois suas indicações dependem da idade, dos sintomas, dos fatores de risco e do histórico clínico de cada paciente.
O eletrocardiograma pode ser realizado como parte da avaliação cardiovascular inicial, especialmente em indivíduos com fatores de risco ou suspeita de doença cardíaca. Também está indicado em situações como palpitações, desmaios, dor torácica e determinadas avaliações pré-operatórias e esportivas.
Já o teste ergométrico possui diversas indicações, destacando-se a investigação de sintomas relacionados ao esforço, como dor torácica e falta de ar, a avaliação de possíveis arritmias induzidas pelo exercício e a análise da capacidade funcional e da resposta cardiovascular ao esforço físico.
Em indivíduos assintomáticos, sua indicação deve ser individualizada, especialmente na presença de fatores de risco, histórico familiar de doença cardiovascular precoce ou morte súbita, e em determinadas situações relacionadas à prática esportiva.
Quanto à repetição dos exames, não existe um intervalo universal de 1, 2 ou 3 anos. A necessidade de uma nova avaliação depende dos resultados anteriores, do surgimento de sintomas, da evolução clínica e do perfil de risco cardiovascular de cada paciente.
O mais importante é que os exames sejam realizados conforme a necessidade individual, evitando tanto a investigação excessiva quanto a identificação tardia de doenças cardiovasculares.
6) Os exames de sangue também ajudam a prever riscos cardíacos? Quais marcadores são mais importantes?
Dr. Bernardo Pizarro de Magalhães – Sim, os exames laboratoriais são fundamentais para identificar fatores de risco e estimar a probabilidade de desenvolvimento de doenças cardiovasculares.
Entre os principais, destacam-se o perfil lipídico, especialmente o colesterol LDL, conhecido como colesterol ruim, e a lipoproteína(a), ou Lp(a), um marcador de risco cardiovascular com forte influência genética, cuja dosagem é recomendada pelo menos uma vez na vida adulta.
Além disso, a glicemia de jejum e a hemoglobina glicada (HbA1c) permitem identificar alterações relacionadas ao diabetes, enquanto a avaliação da função renal, por meio da creatinina e da taxa de filtração glomerular, também fornece informações importantes sobre o risco cardiovascular.
Vale destacar que o coração não funciona de maneira isolada. Doenças que afetam outros órgãos, como a doença renal crônica, estão diretamente associadas ao aumento do risco de infarto, AVC e outras complicações cardiovasculares.
Portanto, os exames laboratoriais, associados à avaliação clínica, são ferramentas essenciais para identificar precocemente fatores de risco e orientar estratégias individualizadas de prevenção.
7) Para o senhor, quais são os sintomas que nunca devem ser ignorados, mesmo para quem faz os exames regularmente?
Dr. Bernardo Pizarro de Magalhães – Existem alguns sinais de alerta, conhecidos na Medicina como red flags, que nunca devem ser ignorados. Entre eles, destacam-se a dor torácica, especialmente quando relacionada ao esforço físico, a falta de ar desproporcional ao esforço realizado, os desmaios e as palpitações acompanhadas de sintomas como tontura ou sensação de desmaio.
Outro sinal de alerta muito importante, mas frequentemente negligenciado, é a queda inexplicada da capacidade física. Por exemplo, uma pessoa que costumava realizar determinada atividade física sem dificuldades e passa a apresentar cansaço excessivo ou redução importante do desempenho, sem uma causa aparente.
É importante lembrar que exames normais realizados anteriormente não excluem o surgimento de uma doença cardiovascular. Por isso, sintomas novos ou mudanças inexplicadas na capacidade física devem sempre ser valorizados.
8) E em relação à saúde do coração, de que forma o Hospital Moinhos de Vento contribui com o paciente? O que oferece como diferencial e quais os exames que disponibiliza?
Dr. Bernardo Pizarro de Magalhães - O Hospital Moinhos de Vento dispõe de profissionais extremamente qualificados, referências nacionais e internacionais, inclusive muitos autores de diretrizes na área da Cardiologia. Além disso, dispõe dos principais exames para diagnóstico e tratamento das doenças cardiológicas com tecnologia de última geração e softwares atualizados para manejo dos casos mais complexos, quando necessário.
9) O que há de mais inovador?
Dr. Bernardo Pizarro de Magalhães – O Hospital Moinhos de Vento se destaca pela inovação em diversas áreas da Cardiologia, tanto pela incorporação de tecnologias de última geração quanto pela atuação de equipes altamente especializadas.
Entre os principais diferenciais, podemos destacar:
Mais do que incorporar novas tecnologias, acredito que o grande diferencial do Hospital Moinhos de Vento está em integrar inovação, conhecimento científico e atendimento individualizado, oferecendo ao paciente uma Cardiologia moderna, especializada e baseada nas melhores evidências científicas.
10) E, para fechar, quais são as suas recomendações para os nossos leitores sobre este tema?
Dr. Bernardo Pizarro de Magalhães – A principal mensagem que gostaria de deixar aos leitores é que a saúde cardiovascular não começa no consultório, mas no dia a dia.
Mais do que realizar exames, é fundamental conhecer o próprio risco cardiovascular e agir precocemente.
As doenças cardiovasculares podem evoluir de maneira silenciosa e progressiva, mas são, em grande parte, preveníveis. Portanto, cuide do seu coração antes que ele precise chamar a sua atenção.
Prevenção não é excesso de cuidado, mas uma estratégia baseada em evidências científicas para viver mais e, sobretudo, melhor.
Para isso, tenha uma alimentação equilibrada, priorize a qualidade do sono, pratique exercícios físicos regularmente, realize avaliações de saúde conforme sua idade e seus fatores de risco, controle a pressão arterial, o colesterol e a glicemia, evite o tabagismo e procure maneiras saudáveis de lidar com o estresse.
E, acima de tudo, não se esqueça de aproveitar a vida e ser feliz! Afinal, cuidar do coração não significa apenas viver por mais tempo, mas viver com mais saúde, qualidade de vida e felicidade.
Fonte: Dr. Bernardo Pizarro de Magalhães (CRM-RS 48180/RQE 46214) é médico cardiologista do Hospital Moinhos de Vento, com especialização em Cardiologia do Esporte e Ergoespirometria.

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