No início de maio, foi decretada emergência na Saúde Pública do Rio Grande do Sul diante do aumento de 533% nas hospitalizações por Influenza, acompanhada de alta de 102,7% por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) e de 376,9% pelo Rinovírus. Diante deste cenário, algumas orientações são importantes. Por este motivo, o Blog Saúde e Você entrevistou o Dr. Murillo Machado Cipolat, médico infectologista do Serviço de Controle de Infecção do Hospital Moinhos de Vento.

Como a população pode se proteger de vírus respiratórios?

Dr. Murillo Machado Cipolat - Especialmente com a chegada do inverno, a principal medida para a proteção contra vírus respiratórios, como o Influenza, o SARS-CoV-2 (causador da COVID-19) e o Vírus Sincicial Respiratório (VSR), é a vacinação. 

Além disso, é recomendado adotar medidas simples, mas eficazes, como:

- Evitar ambientes fechados e mal ventilados;

- Priorizar a circulação de ar natural;

- Higienizar frequentemente as mãos;

- Evitar tocar olhos, nariz e boca;

- Cobrir tosse e espirros com o antebraço;

- Utilizar máscara em locais com aglomeração, serviços de saúde ou na presença de sintomas respiratórios;

- Se sentir febre ou estiver com tosse, coriza ou dor de garganta reduzir o contato social e permanecer em casa, sempre que possível, para diminuir a transmissão;

- Se estiver com sintomas gripais ou estiver no período de transmissão de vírus respiratórios utilizar uma máscara quando precisar sair na rua ou frequentar ambientes com outras pessoas;

- Também é importante manter boa qualidade do sono, alimentação adequada e controle das doenças de base, pois fadiga, desnutrição e descompensação clínica aumentam o risco de infecções graves e hospitalização por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG).

A vacinação ajuda, mesmo se o vírus tiver sofrido alterações?

Dr. Murillo Machado Cipolat - Sim, a forma mais eficaz de reduzir o risco de infecção por vírus respiratórios é manter a vacinação atualizada, especialmente para grupos de risco, como idosos, gestantes, crianças pequenas, imunossuprimidos e pessoas com doenças crônicas. 

No inverno do Rio Grande do Sul, existe proteção vacinal disponível para o vírus Influenza — responsável pela gripe sazonal e por muitos casos de SRAG e hospitalização — e o vírus da COVID-19, cujas vacinas continuam reduzindo de forma importante o risco de formas graves, internação e morte.

Além deles, já existem vacinas contra o VSR, especialmente indicadas para idosos, gestantes e alguns grupos de maior risco, reduzindo bronquiolite, pneumonia e descompensações cardiopulmonares associadas ao vírus.

Algumas informações importantes: o vírus da Influenza sofre muitas mutações, por isso é importante manter a vacina sempre atualizada, anualmente. As vacinas disponíveis (como a trivalente e a tetravalente) protegem contra as principais cepas do vírus Influenza: Influenza A H1N1 e H3N2 e Influenza B. 

Da mesma forma, a vacina contra o vírus SARS-CoV-2, causador da COVID-19, tem proteção contra as subvariantes da linhagem Omicron. Inclusive, entende-se que as pessoas imunizadas com as vacinas atuais têm proteção contra a subvariante Cicada, que ganhou atenção da mídia recentemente. 

Quais são as suas recomendações neste momento, com as primeiras ondas de frio chegando ao estado gaúcho e a proximidade do inverno?

Dr. Murillo Machado Cipolat - Mais uma vez, a principal dica é manter a vacinação em dia para os principais vírus respiratórios que podem ser prevenidos com vacina, que juntos constituem grande parte dos causadores de atendimentos ou hospitalizações por vírus respiratórios. Embora outros vírus respiratórios muito frequentes no inverno gaúcho — como rinovírus, adenovírus, metapneumovírus e parainfluenza — ainda não tenham vacinação amplamente disponível para a população, a imunização contra Influenza, COVID-19 e VSR representa hoje a principal estratégia para diminuir casos graves, internações e mortalidade durante a sazonalidade respiratória. 

Além da vacinação, podemos complementar os cuidados com as medidas de etiqueta respiratória (que foram anteriormente descritas) e acompanhar as informações atualizadas dos órgãos competentes (como o Ministério da Saúde e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária - ANVISA).

Quais são os grupos de pessoas que têm maior risco de agravamento?

Dr. Murillo Machado Cipolat - Há grupos ou faixas etárias que estão sob maior risco de desenvolverem um quadro de síndromes graves após a infecção por um vírus respiratório. Crianças, especialmente na faixa de 0 a 4 anos, apresentam maior incidência de SRAG e hospitalizações por este motivo. Particularmente, a incidência de VSR e Rinovírus costuma ser alta nos menores de 1 ano. Em algumas análises, mais de 70% dos casos de SRAG por VSR ocorrem nesta faixa etária, com taxas de mortalidade por SRAG comparáveis a outros grupos de risco, como a população idosa. 

Indivíduos com 60 anos ou mais, mostram maior risco de evoluções graves e mortalidade em surtos de doenças respiratórias, especialmente em relação à Influenza A e nas infecções por SARS-CoV-2. Em muitos estudos, os idosos ainda representam a proporção mais alta de óbitos por SRAG, e continuam a ter maior probabilidade de complicações severas e necessidade de UTI, refletindo tanto na imunossenescência (processo natural de envelhecimento e declínio funcional do sistema imunológico) quanto em uma maior prevalência de comorbidades nesta faixa etária. Entretanto, mesmo nos extremos de faixa etária e em pessoas com comorbidades os desfechos mais graves são observados em pessoas com atraso vacinal.

Como diferenciar uma síndrome respiratória leve de uma que precise de atenção hospitalar?

Dr. Murillo Machado Cipolat - As síndromes respiratórias leves são muito mais frequentes, normalmente não requerendo nenhuma preocupação maior. Entretanto, existem sinais e sintomas de alerta para quadros mais graves, que exigem atenção hospitalar, baseando-se em critérios de gravidade reconhecidos por protocolos de vigilância e manejo clínico. 

Síndromes respiratórias leves costumam cursar com início agudo de sintomas, como:

- Febre;

- Tosse;

- Dor de garganta;

- Coriza;

- Mialgia (ou dor no corpo); 

- Cefaleia (dor de cabeça); 

- Sem sinais ou sintomas de insuficiência respiratória ou disfunção orgânica significativa. 

Já quadros mais graves, que merecem avaliação em serviços de saúde, apresentam-se com: 

- Dispneia (falta de ar) ou desconforto respiratório, medida no oxímetro de saturação de oxigênio menor que 95% em ar ambiente;

- Aumento da frequência respiratória ou sinais de insuficiência respiratória ao exame físico. 

Quadros mais sérios em evolução podem cursar com:

- Sonolência;

- Confusão mental;

- Cianose (lábios ou face arroxeados);

- Desidratação;

- E, em crianças, recusa alimentar e tiragem costal (esforço respiratório intenso com o uso da musculatura acessória do tórax).

A baixa procura por imunização ainda é um fator relevante no aumento dos casos?

Dr. Murillo Machado Cipolat - Sim, o atraso vacinal é um dos principais fatores de risco para o desenvolvimento de quadros mais graves após a infecção de vírus respiratórios naquelas doenças que podem ser prevenidas com vacinas, como Influenza, COVID-19 ou infecção por VSR. A baixa procura por vacinação, por exemplo, foi um dos principais fatores de risco relacionados ao aumento e à gravidade dos casos de Influenza no ano de 2025. No ano anterior, a maioria das ocorrências graves e mortes ocorreu em indivíduos não vacinados - cerca de 82% das hospitalizações e 78% dos óbitos no período de surto foram em pessoas sem vacinação contra Influenza.

Afinal, qual é o papel da vacinação na redução dos surtos?

Dr. Murillo Machado Cipolat - A vacinação contra Influenza e COVID-19, por exemplo, atua principalmente reduzindo a população suscetível a adquirir essas infecções, a carga viral circulante e, de forma mais consistente, a gravidade clínica e a mortalidade, mesmo quando não impede totalmente a infecção. 

Estudos observacionais e meta-análises demonstram que a vacinação contra Influenza reduz hospitalizações e óbitos por SRAG em 40–70% em idosos e grupos de risco, além de atenuar picos sazonais e a pressão sobre o sistema de saúde; efeito semelhante é observado com vacinas contra SARS-CoV-2, com redução robusta de hospitalização, UTI e morte, inclusive frente a variantes com escape imunológico parcial. 

Agora, em nível populacional, altas coberturas vacinais não necessariamente eliminam surtos, mas achatam curvas epidêmicas, reduzem a duração e a intensidade dos picos e diminuem eventos indiretos (coinfecções, descompensação de comorbidades), sendo, portanto, a intervenção isolada mais custo-efetiva para mitigar o impacto clínico e assistencial das doenças respiratórias sazonais. Infelizmente, a cobertura vacinal para Influenza e para COVID-19 no Rio Grande do Sul ainda está significativamente abaixo dos níveis considerados adequados para mitigação de surtos e proteção populacional. 

Sobre a vacina da Influenza, dados oficiais de cobertura vacinal mostram que a campanha de 2025 no RS ficou muito abaixo da meta de 90% nos grupos prioritários (idosos, crianças, gestantes e outros grupos elegíveis). Em atualizações parciais de dados do painel nacional, as coberturas estimadas no Estado e na região Sul giravam em torno de 50–55% no total dos grupos prioritários, com variações menores por faixa etária (por exemplo, em idades específicas e gestantes), o que é preocupante.


Fonte: Dr. Murillo Machado Cipolat (CRM-RS 42.873 / RQE 38037) é médico infectologista do Serviço de Controle de Infecção do Hospital Moinhos de Vento.

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