Desde o século IV antes de Cristo, na época de Aristóteles, a adolescência é considerada uma fase de turbulência, com tempestades e estresses. A mesma classificação aparece em 1904, quando iniciaram os primeiros estudos científicos e sistemáticos que avaliaram esta faixa etária. E isso se perpetua. 

Mas como ajudar os adolescentes a lidarem com esta fase tão crítica e cheia de incertezas? Como tirá-los da invisibilidade, sem invadir seu espaço? Como saber se estão navegando no mundo digital de forma saudável e segura? Para responder a essas e a outras questões, o Blog Saúde e Você conversou com a Dra. Lílian Day Hagel, médica de adolescentes (pediatra) do Hospital Moinhos de Vento.

O que é a adolescência?

Segundo a Organização Mundial de Saúde, a adolescência é a segunda década de vida, que vai dos dez aos 19 anos de idade. A grande mudança, conforme a Dra. Lílian Day Hagel, é que a puberdade tem variado um pouco de faixa etária. Estudos indicam que esse ciclo tem começado cada vez mais cedo, especialmente nas meninas. 

Como inicia a puberdade?

“Essa fase dura de dois a quatro anos e consiste em mudanças físicas. Em geral, começam entre os 8 e 13 anos de idade e, nos meninos, inicia-se entre os 9 e 14 anos. Então, toda a mudança física acontece em um período e a mudança emocional e social depois. Já se sabe que, na adolescência, a parte do cérebro responsável pelos limites, pelo senso de realidade e pelo autocontrole amadurece mais tarde”, esclarece.

Motor de Fórmula 1 sem freio

“Primeiro vem o impulso e mais tarde vem a questão da maturidade. É como se tivesse ‘um motor de Fórmula 1’ sem freio. E essas são as dificuldades enfrentadas, não só por médicos, mas familiares, professores e todos que lidam com adolescentes”, garante.

Quais são as principais questões abordadas em consultório?

De acordo com a Dra. Lílian, atualmente, os três grandes motivos de consulta para adolescentes são:

  • Dúvidas sobre o desenvolvimento físico: os jovens querem saber se estão dentro da normalidade em relação a aspectos como altura, peso, corpo e menstruação.
  • Investigação e prevenção de doenças: muitas enfermidades começam nessa fase e se estendem até a idade adulta. Por isso, a adolescência é um período crucial para prevenir distúrbios, como doenças mentais, obesidade, problemas de pressão arterial e dislipidemia (equilíbrio alterado de gorduras no sangue, como colesterol e triglicerídeos). Essa é, portanto, uma fase que exige muita observação clínica.
  • Mudanças de comportamento e exposição a riscos: alterações de atitude em ambientes sociais — como na escola, no esporte e na família — merecem atenção, pois a adolescência é uma fase de experimentação. Muitas vezes, uma mudança abrupta pode sinalizar comportamentos de risco, como o consumo de bebidas alcoólicas ou o uso de cigarro (especialmente o eletrônico, que causa grave dano pulmonar e forte dependência química e comportamental devido à alta concentração de nicotina).

Como dar visibilidade aos adolescentes?

Para a médica, o primeiro passo para que os adolescentes não se tornem invisíveis é garantir que eles sejam atendidos, ao menos uma vez por ano, por um pediatra ou especialista em medicina do adolescente. Essa consulta periódica é fundamental para avaliar de perto todas as transformações dessa fase, assegurando ao jovem o direito essencial de ser visto.

Qual é o cuidado que deve ser dado dentro e fora de casa?

“As telas e as mídias digitais são relevantes e importantes, mas precisam de controle não só de tempo de uso como de qualidade de conteúdo. Atualmente, o computador dentro do quarto funciona como o ‘meio da rua’. Por isso, a atenção e a proteção das famílias devem ser as mesmas, independentemente de o jovem estar fora de casa ou trancado no dormitório, navegando na internet”, alerta.

Como ajudar os adolescentes nesta era digital?

“Podemos — e devemos — transferir parte do universo de atividades on-line para o off-line. O que significa isso? Priorizar atividades feitas em grupo, de forma presencial. Para que isso aconteça, os adolescentes, assim como as crianças, aprendem pelo exemplo. Se os adultos estabelecem limites no próprio tempo de tela, fica muito mais fácil para os mais novos se adaptarem”, afirma.

Quais são as outras recomendações que podem ajudar nesta fase?

Segundo a médica, algumas dicas práticas de prevenção e rotina são fundamentais:

  • Adiar o uso de redes sociais: evitar, ao máximo, o acesso a mídias e redes sociais antes dos 14 anos;
  • Cuidar desde a primeira infância: não oferecer o uso de telas para crianças menores de três anos;
  • Estimular o convívio ao ar livre: propiciar atividades na rua e o contato presencial com outras pessoas, como jogos e brincadeiras. Essas interações promovem o desenvolvimento motor, visual e cognitivo, além de causarem um impacto positivo muito maior no bem-estar social, no desempenho escolar e no comportamento geral. Recomenda-se também a prática de atividade física por, pelo menos, 180 minutos por semana;
  • Valorizar as refeições em família: organizar para que pelo menos uma refeição diária (como o almoço ou o jantar) seja feita em conjunto, fora do quarto e totalmente livre de telas;
  • Garantir o acompanhamento médico regular: manter a rotina de consultas com o pediatra ou hebiatra ao menos uma vez por ano.

Fonte: Dra. Lílian Day Hagel (CRM-RS 11822) é médica pediatra (especialista em medicina de adolescentes) do Hospital Moinhos de Vento e presidente do departamento científico de medicina do adolescente da Sociedade Brasileira de Pediatria.

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