Quem nunca esqueceu um compromisso, perdeu um objeto ou teve dificuldade para manter a concentração em uma tarefa? Distrações fazem parte da rotina e, na maioria das vezes, são absolutamente normais. Mas como diferenciar estes episódios do Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH)? E quando sintomas semelhantes podem estar relacionados à ansiedade, à depressão ou à Síndrome de Burnout? Para esclarecer estas dúvidas, o Blog Saúde e Você entrevistou a Dra. Fernanda Timm, psiquiatra do Hospital Moinhos de Vento.
Segundo ela, o que diferencia o TDAH é sua intensidade e constância, além do impacto real que causa na vida da pessoa. De acordo com a Dra. Fernanda Timm, quem possui TDAH enfrenta uma dificuldade de concentração permanente. “Esta distração está presente há meses, quase todos os dias, e é maior do que seria esperado para a idade daquele indivíduo.”
Quando surgem os sinais?
“Alguns dos outros sinais do TDAH, inclusive, aparecem antes dos 12 anos de idade, mesmo que na época ninguém tenha percebido. Se os sintomas surgiram só depois dos 13 anos, é mais provável que o paciente tenha outro diagnóstico, como ansiedade ou depressão, ou esteja sob efeito de alguma substância”, esclarece.
Problemas concretos
“O ponto mais importante é o prejuízo real. No TDAH, a desatenção ou a agitação chegam a causar problemas concretos: o paciente pode perder o emprego, não conseguir promoções, ter brigas frequentes em casa e ainda passar por dificuldades nos relacionamentos. Alguns, até conseguem ‘se virar’ numa área da vida, com um esforço enorme, mas acabam falhando em outra”, reconhece a psiquiatra.
Distração normal
Conforme a médica, é preciso observar onde a dificuldade do indivíduo aparece. “Distração ‘normal’ costuma ser relacionada a uma situação: a pessoa se distrai numa reunião chata, mas se concentra bem quando o assunto interessa”, explica.
“Já no TDAH esta desatenção aparece em vários contextos ao mesmo tempo: no trabalho, em casa e na vida social. E muda com a idade. A agitação que na fase infantil aparece como correr e subir em tudo, no adulto vira mais uma inquietação interna, uma dificuldade em ‘desligar’ ou uma mania de falar demais. E a falta de atenção tende a se manter parecida ao longo da vida, dificultando planejar, organizar o tempo e manter o foco em tarefas mais longas”, destaca a Dra. Fernanda Timm.
Também vale ouvir quem convive com o paciente. “Como muita gente com TDAH não percebe claramente o próprio padrão, ajuda bastante conversar com familiares, parceiros ou até resgatar boletins escolares antigos. Às vezes, o relato de quem convive com a pessoa revela aspectos que ela própria ainda não consegue perceber em si”, justifica.
TDAH, ansiedade, depressão ou burnout?
A psiquiatra elucida que é muito fácil confundir estes 4 diagnósticos; sendo este um dos maiores desafios em consultório.
Para a Dra. Fernanda, quem enfrenta a ansiedade e o TDAH compartilha de:
- Inquietação;
- Irritabilidade;
- Instabilidade emocional.
Já quem tem depressão e o TDAH enfrenta:
- Dificuldade de concentração;
- Irritabilidade;
- Procrastinação.
“A diferença costuma estar nos detalhes. Na ansiedade pode haver crises de pânico e preocupação excessiva, mas a pessoa consegue focar quando está mais calma. Na depressão há uma tristeza persistente e perda de interesse, o que não é a mesma coisa que desatenção”, compara.
“Para complicar ainda mais, é comum que alguns sintomas apareçam juntos. Quem tem TDAH, possui uma chance bem maior de desenvolver também ansiedade, depressão ou até transtorno bipolar. Então, fica difícil saber: é TDAH ou ansiedade? Ou, ainda, será que a pessoa tem os dois ao mesmo tempo?”, questiona.
Falso positivo
E o risco de diagnóstico apressado é real. “Muitos testes rápidos de autoavaliação que circulam pela internet têm uma taxa alta de falso positivo, apontando TDAH em pessoas que não têm. Alguns estudos mostram que, usado sozinho, este tipo de avaliação erra em mais da metade dos casos”, analisa.
“Por isso, um diagnóstico responsável nunca deveria se basear só num questionário. É importante buscar informações de outras fontes, como o indivíduo era na escola, o que a família observa, como ele se comporta no trabalho e, em casos mais confusos, até fazer uma avaliação neuropsicológica completa, recomenda.
E quanto à medicalização excessiva?
“O TDAH em adultos é uma condição bem estudada, com sinais característicos, resposta previsível a tratamento e bases biológicas conhecidas. Sendo que, boa parte de quem teve TDAH na infância, carrega sintomas para a vida adulta. Isto mostra que existe, sim, uma população real que precisa e se beneficia do diagnóstico”, garante.
“Em paralelo, há sinais de excesso. Ao longo dos anos, os critérios foram ficando mais amplos, exigindo menos sintomas e aceitando o início mais tardio, o que já fez o número de ‘diagnósticos possíveis’ subir bastante, em alguns estudos. Somado a isto, está o uso de testes rápidos e pouco precisos. Assim, cria-se um cenário em que mais gente é diagnosticada, mas nem sempre com o rigor necessário”, avalia a psiquiatra.
Prejuízo real ou distração?
“Assim, o diagnóstico deveria sempre requerer a comprovação de um prejuízo real e significativo na vida da pessoa, no trabalho, nos relacionamentos, no dia a dia e não, apenas, a presença de alguns sintomas isolados. A diferença central é entre ‘eu me distraio bastante’ e ‘minha vida está sendo seriamente afetada por isso, em várias áreas’, resume.
TDAH sem os critérios clínicos
A Dra. Fernanda atesta que muita gente pensa que tem TDAH, mesmo sem ter todos os critérios clínicos. E isto acontece bastante. “Um estudo mostrou algo interessante. Entre pacientes de um ambulatório de psiquiatria, mais da metade teve resultado positivo num teste rápido de TDAH, mas, quando avaliados com cuidado por um médico, menos de 12% tinham, de fato, o diagnóstico confirmado. A autopercepção, nestes casos, pode estar bem distante da realidade clínica”, pondera.
“Muitos sintomas de desatenção também aparecem como ansiedade, depressão, problemas de sono e até de tireoide. A própria pessoa, muitas vezes, não tem uma visão clara de si mesma neste aspecto. É preciso lembrar como ela era na infância e esta memória costuma ser imprecisa. E, sem perceber, algumas pessoas desenvolveram formas de compensar suas dificuldades, o que confunde ainda mais a autoavaliação”, assegura.
Dificuldades cotidianas ou transtornos?
“Atualmente, existe esta tendência de rotular como ‘transtorno’ o que, até pouco tempo atrás, era visto como parte da variação normal do comportamento humano. Um dos motivos é que a última edição do Manual de Diagnóstico Psiquiátrico ficou um pouco mais flexível nas exigências. Antes, era preciso mostrar uma alteração ‘clinicamente significativa’ no funcionamento da pessoa. Hoje, basta que os sintomas ‘interfiram ou reduzam a qualidade’ de vida dela, uma exigência bem mais subjetiva, que abre espaço para mais diagnósticos”, exemplifica a médica.
“O que preocupa é que atenção e agitação existem num espectro contínuo e não é fácil dizer exatamente onde termina o dito ‘normal’ e começa o ‘transtorno’. Existe o risco de confundir características típicas do desenvolvimento, como a imaturidade natural de uma criança mais nova numa turma escolar, com sintomas de TDAH”, explana.
“Quando se diagnostica em excesso quem tem somente sintomas leves, isto pode tirar a atenção e recursos de quem realmente tem um quadro grave e precisa de ajuda”, argumenta. “E tratar como transtorno o que talvez seja apenas uma dificuldade pontual pode expor a pessoa a efeitos de medicação sem um benefício real proporcional.”
“Por isto, a recomendação para casos ainda em ‘dúvida’ costuma ser não sair correndo para medicar, mas acompanhar com calma, reavaliar com o tempo e reservar o tratamento mais intenso para quem realmente tem prejuízo importante na vida”, defende.
Todo adulto com TDAH precisa de medicação?
De acordo com a médica psiquiatra, nem todo o adulto com TDAH precisa, necessariamente, de remédio. “A medicação costuma ser a primeira opção para os casos moderados a graves: funciona bem e traz alívio rápido. Mas, para casos mais leves ou para quem não tolera os efeitos colaterais das medicações, existem alternativas eficazes”, alega.
“A principal delas é a terapia cognitivo-comportamental (TCC); o tratamento não-medicamentoso com mais evidência científica. Normalmente, são de 8 a 12 sessões, individuais ou em grupo e até on-line, nas quais o paciente aprende a entender melhor como o TDAH funciona na própria vida e como:
- Organizar o seu tempo, suas prioridades e as tarefas de forma mais eficiente;
- Resolver problemas do dia a dia com mais estrutura;
- Lidar melhor com as próprias emoções;
- Revisar pensamentos que travam ou desanimam;
- Incluir o parceiro ou a família no processo, quando faz sentido.
“Na prática, o ideal costuma ser combinar o tratamento psicológico e a medicação, quando necessário. As duas coisas juntas tendem a funcionar melhor do que qualquer uma, isoladamente”, evidencia.
E qual é o papel da psicoterapia?
A psicoterapia tem um papel muito importante para o paciente. “A terapia cognitivo-comportamental, em especial, ajuda tanto com os sintomas centrais do TDAH quanto com problemas que costumam vir junto, como tristeza e ansiedade, e estes benefícios se mantêm ao longo do tempo, não só durante as sessões”, admite a psiquiatra.
“Um ponto que considero fundamental: a terapia melhora o funcionamento do indivíduo na vida real, no trabalho, nas relações e na rotina, independentemente dos sintomas diminuírem ou não. Mesmo que a pessoa ainda sinta que se distrai, aprende estratégias práticas que fazem a vida funcionar melhor no dia a dia e o mais importante é que este ganho tende a se manter mesmo depois que ela termina.”
Mudanças de hábitos ajudam no controle dos sintomas?
Para a Dra. Fernanda, existem várias mudanças simples no cotidiano que fazem diferença real, principalmente quando combinadas com o tratamento.
“O exercício físico, por exemplo, é o hábito com mais evidência científica. Atividades aeróbicas (como caminhada rápida, corrida ou bicicleta) de intensidade moderada a alta ajudam especificamente na atenção e controle de impulsos. Mesmo uma única sessão - de cerca de 30 minutos - já melhora o tempo de reação e reduz a impulsividade e, praticado com regularidade, o exercício melhora tanto a desatenção quanto à agitação. Artes marciais e yoga também ajudam bastante, especialmente no controle emocional”, ilustra.
Organização e gestão do tempo
Segundo a psiquiatra do Hospital Moinhos, a organização e a gestão do tempo também fazem diferença. Por isso, ela indica:
- Ter metas claras;
- Priorizar tarefas;
- Usar agenda ou calendário;
- Fazer listas;
- Marcar alarmes e lembretes;
- Planejar até as pausas ao longo do dia.
“Vale reconhecer o próprio horário de ‘pico’ de atenção e deixar as tarefas mais difíceis para este período”, sugere. “Reduzir distrações no ambiente também ajuda bastante. Uma outra dica é anotar, rapidamente, pensamentos que surgem no meio de uma tarefa, para não perder o raciocínio, nem se distrair. Também convém usar lembretes visuais e ajustar o ambiente para minimizar interrupções. O ‘mindfulness’ ou atenção plena também tem boa evidência e ajuda na concentração e na regulação emocional.”
“Ao final, o que funciona melhor é combinar várias destas estratégias de forma constante. Não como solução mágica isolada, mas como parte de uma rotina, ajustada à realidade de cada pessoa”, preconiza.
Fonte: A Dra. Fernanda Timm (CRM 22488) é psiquiatra do Hospital Moinhos de Vento.

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