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Fronteiras da Medicina apresenta inovações e compartilha experiências

Simpósio organizado pelo Hospital Moinhos de Vento em Porto Alegre reuniu cientistas internacionais e 570 participantes

Especialistas de renome internacional apresentaram inovações na medicina de ponta durante dois dias em Porto Alegre, nesta quinta (4) e sexta-feira (5). Organizado pelo Hospital Moinhos de Vento com apoio da Johns Hopkins Medicine International, o 2º Fronteiras da Medicina teve painéis sobre genética, pesquisa, biologia molecular, diagnósticos, novas terapias e educação. A mobilização de profissionais de diferentes formações na área da saúde garantiu 570 participantes no simpósio, superando o público da edição anterior.

“Estar na fronteira da medicina é nunca esquecer que todo o nosso cuidado deve sempre estar centrado no paciente. É para ele que dedicamos nossas profissões, nossas instituições e nossos esforços em oferecer melhores oportunidades de diagnósticos e tratamento” disse Mohamed Parrini, superintendente-executivo do Hospital Moinhos de Vento. “Neste evento, estamos promovendo novas conexões para a medicina avançar, sendo ao mesmo tempo específicos e abrangentes”, acrescentou, salientando que a iniciativa faz parte das comemorações dos 90 anos do hospital.

Na abertura, o superintendente médico do Hospital Moinhos de Vento, Luiz Nasi, afirmou que a medicina vive um momento de transição. “Temos muitos desafios. Vamos precisar de novas ferramentas para desenvolver a medicina que queremos e necessitamos. As novas tecnologias da informação vêm com uma velocidade muito grande e não temos mais a capacidade de armazenar em nosso cérebro todas as informações necessárias nas decisões críticas e complexas que a medicina impõe”, disse Nasi, ressaltando o compromisso do hospital com a educação médica.

Ali Bydon, médico-diretor na Johns Hopkins, destacou as pesquisas desenvolvidas pela instituição em todo o mundo e a oportunidade de proporcionar as informações com parceiras, como é o caso do Hospital Moinhos de Vento. “É uma parceria que nos orgulha muito porque proporciona uma verdadeira troca de conhecimento”, disse Bydon.

No início de cada dia, antes de começarem os painéis com assuntos médicos, os participantes acompanharam palestras sobre novidades da era digital que impactam na vida de instituições, médicos e pacientes. Fábio Gandour, cientista-chefe no laboratório da IBM Research Division do Brasil, falou de como a cognição, ou seja, a geração de conteúdo no mundo digital, pode ser usada para se obter melhores resultados seja em consultas médicas, tratamentos ou cirurgias. “O homem passou de omnívoro para informívoro. É muita informação. Um especialista tem de adotar um caminho no meio disso para facilitar o seu trabalho”, explicou.

No segundo dia do evento Ricardo Cappra, cientista-chefe da Cappra Data Science, afirmou que é preciso implantar o “vírus da cultura analítica” para beneficiar hospitais, clínicas, médicos e pacientes. Ou seja, analisar os dados disponíveis. “A dificuldade é qualificar, organizar e visualizar as melhores informações. Tem de transformar o big data em small data. Se não for assim, não vamos conseguir trabalhar com todos os dados disponíveis”, disse.

Cappra acrescentou que um dos primeiros passos nesse sentido é sistematizar a coleta de dados. Um exemplo, informou o especialista, foi dado pelo governo dos Estados Unidos que lançou um programa para hospitais uniformizarem as informações. A ideia é que todas as instituições possam ter acesso a dados e se beneficiar disso.

CARDIOLOGIA
A exposição de novas técnicas e estratégias para diagnóstico e tratamento de doenças cardíacas – uma das especialidades em que o Hospital Moinhos de Vento é referência – mobilizou mais de 15 palestrantes em cinco eixos de debate. Os especialistas apresentaram inovações sobre medicina diagnóstica, aterosclerose e dislipidemia, hipertensão pulmonar, abordagens para doenças valvulares e avaliaram as novas fronteiras em cardiologia.

O cardiologista intervencionista Matthews Chacko, diretor de Intervenções Vasculares Periféricas do Hospital Johns Hopkins, foi convidado especial da programação e trouxe a experiência em procedimentos cardiovasculares minimamente invasivos. Participante que veio ao Brasil pela segunda vez após estar na primeira edição do simpósio, em 2015, Chacko apresentou as modernas técnicas que utiliza em Baltimore na avaliação de isquemias coronarianas e nos procedimentos de tratamento.

A cardiologista superintendente médica adjunta e integrante do comitê científico do Fronteiras da Medicina, Carisi Polanczyk, participou do painel sobre aterosclerose e dislipidemia, que teve a colaboração dos especialistas Paulo Schwatzman, Mario Wiehe e Emilio Moriguchi. O destaque foram os medicamentos recentemente aprovados pela Anvisa para registro no Brasil, que baixam sensivelmente o nível de colesterol LDL. “É uma proposta inovadora. Saímos de um colesterol de 130 para 20 ou 30, um colesterol quase de criança. Por isso é importante o nosso debate, discutir e avaliar os impactos dessas novas alternativas de controle do risco de problemas cardíacos”, informou Carisi.

ONCOLOGIA
O câncer em adultos jovens não é comum. Dados da incidência mundial mostram que em torno de 1% de todas as neoplasias ocorrem entre 20 e 39 anos. Dados recentes, entretanto, apontam aumento do câncer de cólon e reto abaixo de 55 anos de idade. “Sugere-se que uma das causas mais prováveis seja o aumento nos índices de obesidade e inatividade física”, ressaltou a médica do Serviço de Oncologia do Hospital Moinhos de Vento Alessandra Morelle no painel “O câncer no paciente jovem”.

Fatores de riscos e causas principais em pacientes jovens

Mutações genéticas;
Exposições a raios ultravioleta (excesso de sol ou camas de bronzeamento);
Infecções por vírus (HPV e HIV);
Tratamento com quimioterapia e radioterapia quando criança.

A coordenadora da área de Oncogenética do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, Patrícia Ashton Prolla, reforçou que as avaliações de risco da genética familiar precisam ser uma prática médica. A coleta adequada da história familiar, além do paciente, e entender como usar essa informação pode prevenir o câncer. Pacientes que têm uma mutação podem se beneficiar atualmente com drogas específicas para esses casos”, disse a geneticista.

A história familiar é muito importante. Por meio dela será possível testar várias pessoas da mesma família para definir o que um exame genético não consegue definir com clareza. “História familiar é dinâmica. O que talvez hoje não pareça uma história sugestiva, talvez seja daqui a quatro anos” concluiu.

NEUROLOGIA
As abordagens da neurologia avançaram sobre os temas de esclerose múltipla, demência, doença de Parkinson, coluna e vascular. Mais de 20 especialistas interagiram nos cinco painéis do Fronteiras da Medicina abordando tecnologias, diagnóstico e tratamento. Foram convidados especiais Elisabeth Marsh, diretora do Centro de AVC do Centro Médico Johns Hopkins Bayview, que apresentou as novidades em tratamento do acidente vascular isquêmico agudo; e Ali Bydon, diretor clínico do Programa de Coluna no centro americano, que traz a experiência sobre os avanços no diagnóstico e tratamento de problemas na espinha.

No campo da neurologia vascular, a chefe do Serviço de Neurologia e Neurocirurgia do Hospital Moinhos de Vento, Sheila Martins, atualizou o público sobre as inovações que estão em andamento no Brasil para consolidar a Rede Brasil AVC, instituição que preside. O país registra 400 mil AVCs anuais, sendo a primeira causa de incapacidade e a segunda causa de morte, com mais de 100 mil óbitos por ano em território nacional.

Sheila esclareceu que durante muito tempo a política nacional era centrada em controlar hipertensão, diabetes e fumo, negligenciando importantes aspectos do cuidado do AVC, sem ações para melhorar a assistência hospitalar. “O marco na organização do cuidado com AVC foi a política nacional a partir de 2012, instituída 17 anos depois do que nos Estados Unidos”, exemplificou.

Nesse aspecto, o Hospital Moinhos de Vento integra o movimento nacional que atua na habilitação dos centros de AVC pelo país. Um projeto piloto na Região Metropolitana de Porto Alegre começou a ser executado em 2009, foi expandido e, atualmente, conta com 16 instituições públicas, além dos hospitais privados.

Sheila destacou que 80% dos casos de AVC são atendidos no Sistema Único de Saúde (SUS). “Os grandes hospitais estão estruturados, e temos que pensar na maior parte da população, que é atendida pelo SUS”, afirmou, enfatizando que o desafio é expandir a política e os avanços para o Brasil, em todos os estados.

UROLOGIA
Com a estatística de que o câncer de próstata é o segundo mais comum entre os homens (atrás apenas do câncer de pele não melanoma) no Brasil, especialistas na área de urologia falaram no Fronteiras da Medicina sobre avanços no tratamento, principalmente utilizando a medicina de precisão – analisa cada caso individualmente. “Há pesquisas para definir em nível molecular a agressividade da doença que é diferente de paciente para paciente, e isso auxilia no tratamento”, disse Eduardo Carvalhal, chefe do Serviço de Urologia do Hospital Moinhos de Vento.

Professor de Oncologia e Urologia da Johns Hopkins, Mario Eisenberger destacou novas oportunidades terapêuticas para a câncer de próstata. “Estamos notando que existem fatores diferentes nos pacientes. O desafio é saber quem necessita de tratamento cirúrgico ou de radioterapia, por exemplo, pois existe uma cultura que mostra que muitos homens com tumor muito pequeno têm uma sobrevida normal sem precisar passar por procedimentos mais agressivos. A maioria das pessoas que têm uma recorrência do câncer de próstata pode tratá-la como uma doença crônica”, disse Eisenberger, referência internacional em novas oportunidades terapêuticas no câncer de próstata.

MEDICINA PARA IDOSOS
A medicina para idosos também teve espaço no simpósio. A diretora médica do Centro Médico Johns Hopkins, Michele Bellantoni, disse que é preciso estar atento se o paciente da terceira idade está tomando medicamentos de forma correta. A especialista enfatizou de que nada adianta a prescrição de medicamentos de alta tecnologia se essa vantagem é perdida ao não seguir dosagens e horários prescritos. “Não é um exagero a necessidade de organização”, observou, mostrando fotos de “farmacinhas” completamente fora de ordem na casa de pacientes.

Michele Bellantoni também alertou sobre consumo excessivo de medicamentos na população idosa, a polifarmácia. A especialista disse que a desprescrição começa a ser mais falada como uma forma de avaliar a real necessidade de um idoso usar vários medicamentos. “Se o paciente diz que fica com um desconforto na cabeça após o uso de um medicamento, esse pode ser um sinal para a desprescrição”, afirmou.

EDUCAÇÃO
Um dos eixos que ganhou espaço no Fronteiras da Medicina foi a formação de profissionais da área médica. O centro do debate foi como inspirar a reflexão nas habilidades e o perfil do médico do futuro diante do conjunto de inovações da área. Para avançar na discussão, o simpósio reuniu os especialistas Charles Wiener, vice-presidente de Assuntos Acadêmicos e diretor médico da Johns Hopkins, Atif Zaheer, diretor médico de e-learning e e-radiology da instituição americana, Lucia Pellanda, reitora da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), e Sigisfredo Brenelli, da Universidade Estadual de Campinas. O debate teve a mediação de Maria Eugênia Bresolin, epidemiologista do Hospital Moinhos de Vento e integrante do comitê científico do simpósio.

O pano de fundo das discussões foi o novo currículo que deve ser implementado até 2018 nas faculdades de medicina do Brasil, onde há predominância de cursos tradicionais. Wiener, que atuou na experiência recente do novo currículo na Faculdade de Medicina da Universidade Johns Hopkins, contou que o processo de mudança demorou cinco anos e que passou por resistências naturais, com o desafio de definir a filosofia sobre o que a instituição quer ensinar ao aluno e depois a metodologia sobre como desenvolverá esse projeto.

 

Crédito da foto: Leonardo Lenskij. 

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