Doenças

“O suicídio é apenas a ponta de um iceberg”, diz especialista

No meio deste ano, o mundo perdeu dois dos maiores cantores da atualidade. Chris Cornell, ex-vocalista do Soundgarden e do Audioslave, Chester Bennington, vocalista da banda de rock Linkin Park.  Ambos, Cornell e Bennington, sofriam de depressão e lutavam contra o vício em álcool e drogas.

A médica do Serviço de Psiquiatria do Hospital Moinhos de Vento, Carmen Baldisserotto, diz que o suicídio pode ser uma consequência de fatores tanto internos como externos. No primeiro caso, transtornos mentais (depressão, bipolaridade e personalidade impulsiva ou agressiva), histórico de tentativas de suicídio, dependência de álcool e/ou drogas e esquizofrenia, são os principais riscos.

Quanto as razões externas, questões culturais e socioeconômicos, acontecimentos estressantes e perturbações mentais também se enquadram em possíveis motivadores. “O alerta começa com a mudança de pensamentos, que se tornam negativos, geralmente devido ao sentimento de tristeza, desesperança e desamparo. O suicídio é apenas a ponta de um iceberg. Quando os pensamentos mudam com relação à morte, devemos ‘acender o sinal vermelho de alerta’, já que pensar, desejar e querer se matar não são o esperado quando estamos nos sentindo bem”.

Com relação à hereditariedade, a especialista avisa: “tanto transtornos mentais quanto suicídios incidem mais em algumas famílias. Parentes de primeiro grau de pessoas que cometeram o autocídio têm cinco vezes mais chances de atentar contra a própria vida”.

Dados recentes

O Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde, divulgou em abril deste ano o Mapa da Violência 2017, que revelou um aumento de quase 10% das taxas de morte por suicídio de 2002 a 2014, na faixa dos 15 aos 29 anos. Em relação ao Rio Grande do Sul, a cada 100 mil habitantes, 10,14 morreram por suicídio em 2015. Esse número é quase o dobro da média nacional, que é de 5,4. No total, são cerca de mil óbitos por suicídio a cada ano no Estado. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) revela que mais de 800 mil pessoas morrem por suicídio a cada ano em todo o mundo, o que equivale a uma morte a cada 40 segundos. No Brasil, as taxas de suicídio são de 15 casos a cada 100 mil habitantes para os homens e 8 casos a cada 100 mil habitantes para as mulheres.

O diagnóstico tardio, a carência de serviços de atenção à saúde mental e o tratamento inadequado agravam a evolução da doença. “Por isso, devemos detectar precocemente a vulnerabilidade emocional e encaminhar para tratamento psiquiátrico e psicológico”. Ainda conforme a psiquiatra, cerca de 95% dos suicídios podem ser prevenidos. “Uma grande parcela de suicidas não necessariamente queria morrer, só queria dar um tempo na vida, queria uma pausa ”.

A partir da década de 1990, a OMS passou a considerar a doença como um problema de saúde pública e incentivou a criação de planos nacionais e estratégias de prevenção eficazes. O Setembro Amarelo é um exemplo de campanha de conscientização, foi implantada no Brasil pelo Centro de Valorização da Vida (CVV), Conselho Federal de Medicina (CFM) e Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) em 2014 e promove ampla divulgação de informações. Somado a isso, em conjunto com outros estados-membros da OMS, o País assumiu o compromisso de reduzir em 10%, até 2020, o número de suicídios.

Para ajudar pessoas e familiares, o CVV realiza apoio emocional através de um atendendo voluntária e gratuito, sob total sigilo, por intermédio do telefone (141), e-mail, chat e site, disponível 24 horas, todos os dias.

Fonte: Serviço de Psiquiatria do Hospital Moinhos de Vento, Carmen Baldisserotto (CRM: 22218).